Vítor Lopes desistiu de cursar Direito para seguir o
negócio de família
Ganhar a vida a montar e
vender campas para cemitérios
Os clientes mais jovens
preferem campas sem grandes pormenores e linhas direitas
enquanto os mais antigos gostam de diferentes alçados,
imagens, lápides com inscrições.
Desde tenra idade Vítor
Lopes acompanhou o negócio do pai, canteiro de mármores
no Cartaxo. Não era futuro profissional que o
entusiasmasse mas acabou por seguir o negócio de
família.
Ainda se candidatou ao
curso de Direito depois de completar o 12.º ano, mas não
deu seguimento à segunda tentativa de levar por diante
as ideias que lhe passavam pela cabeça em mais novo de
ser advogado.
Aliás, a ideia de
seguir um negócio que prospera em função dos
falecimentos nunca fez grande confusão a Vítor Lopes.
O trabalho típico do
canteiro alterou-se nos últimos anos. Nos tempos em que
trabalhava com o pai, a actividade tinha de ser autónoma
e executava-se mais trabalho de escultura. “Era época
para quem tinha arte”, recorda. Vítor Lopes possui uma
oficina na rua do Prioste, que desemboca na Estrada
Nacional 3, junto à entrada norte do Cartaxo.
Trabalha principalmente com
granitos, material que tem mais qualidades que o
mármore, apesar de menor fama. Com mais estabilidade de
polimento, não se risca nem se mancha tão facilmente e
são características que valem a preferência.
Na oficina, Vítor Lopes tem
os equipamentos essenciais ao seu trabalho. Além de uma
máquina para corte possui duas máquinas para polir, uma
destinada a superfícies e outra para os contornos dos
tampos. Tem ainda uma lixadeira. Conta apenas com um
colaborador e a ajuda do filho.
Os granitos pretos vêm de
Angola e da África do Sul. Os cinzentos e rosados do
Alentejo, das zonas de Vila Viçosa e de Estremoz. Vítor
Lopes canaliza quase 100 por cento do seu trabalho para
clientes particulares na montagem e venda de campas.
O cliente aparece muitas
vezes com determinadas ideias de campas mas quase sempre
com um denominador comum na mente: adquirir bom, bonito
e barato. Na empresa pode-se adquirir campas entre os
500 e os 1.500 euros.
Os clientes têm também o
hábito de pedir catálogos para ver modelos de campas,
mas Vítor Lopes prefere cada vez mais a oferta do estilo
stand de automóveis. “Com as campas estacionadas no
parque da oficina para as pessoas as verem ao vivo”,
explica, mostrando os cinco modelos de diversas cores e
formatos que ali dispõe de momento.
O empresário tem notado
certas tendências no negócio. Os clientes mais jovens
preferem campas sem grandes pormenores e linhas direitas
enquanto os mais antigos gostam de diferentes alçados,
imagens, lápides com inscrições. E até levam muitas
vezes instrumentos ou acessórios ligados de alguma
maneira à vida dos entes queridos entretanto falecidos.
Há também os pedidos mais
invulgares. Como numa ocasião em que, ainda a trabalhar
com o pai, uma cliente lhe pediu que montasse uma campa
velha para o dia de finados. O pai cansou-se e desabafou
que “enquanto tiver novas não monta velhas”, disse para
a senhora. Há ainda quem queira colocar versos dedicados
ao defunto nas lápides.
Algumas placas de granito
que chegam à oficina com 20 centímetros de espessura
servem para fazer as jarras típicas que acompanham as
campas.
O trabalho é duro
fisicamente e associado a ele vêm muitas vezes as
doenças profissionais, principalmente problemas de
coluna. Os pós gerados são outro aspecto negativo do
trabalho, mas, como explica Vítor Lopes, “o que fica
entranhado desentope-se”.
Por isso o
canteiro/marmorista vai continuar com o negócio. Mas nos
tempos livres não passa sem virar a agulha e
descomprimir a construir violas e guitarras para fado.
Por:
Ricardo Carreira
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